Cátaros
O catarismo - do grego katharos, que significa puro - foi uma seita cristã da Idade Média surgida no Limousin (França) ao final do século XI, a qual praticava um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo.
Esse importante movimento religioso, ganhou força entre os anos de 1100 e 1200. Estreitamente ligado aos bogomilos da Trácia - região histórica do sudeste da Europa conhecida como Macedônia - o movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental que a igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma séria ameaça à religião ortodoxa. As principais manifestações do catarismo centralizavam-se na cidade de Albi, motivo pelo qual seus adeptos também receberam o nome de "albigenses".
Os cátaros concebiam a dualidade entre o espírito e a matéria, assim como, respectivamente, o bem e o mal. As perseguições aos cátaros se iniciaram logo que foram condenados pelo 4º Concílio Lateranense em 1215 pelo Papa Inocêncio III.
Entre seus preceitos, cátaros e seus adeptos rejeitavam os sacramentos católicos. Pregavam o batismo de espírito, chamado "consolamentum", e aqueles que o recebiam eram considerados os perfeitos, levando uma vida de castidade e austeridade, sendo que em seu sacerdócio eram aceitos tanto homens quanto mulheres. Os "crentes" ou adeptos eram os "homens bons" e tinham obrigações menores; recebiam o consolamentum na hora da morte.
Apesar desta hierarquia, não restringiam a experiência transcendental e/ou divina (incluindo gnóstica) aos mais graduados, mas encorajavam a qualquer um que assim desejasse e experimentasse estados alterados de consciência.
Essa concepção sem hierarquia da espiritualidade foi considerada pela igreja Católica uma ameaça para a fé e a unidade cristã, já que atraiu numerosos adeptos. Assim sendo, o catarismo foi considerado herético e contra ele foi estabelecida a Cruzada Albigense (1209-1229). Essa cruzada teve parte de interesses políticos, já que as localidades onde se praticavam o catarismo encontravam-se ligadas ao reino da França, porém independentes do mesmo.
Outra característica marcante dos cátaros é a tolerância religiosa, visto que nas regiões onde o Catarismo era predominante, conviviam em harmonia, cátaros, judeus, pagãos e até mesmo católicos.
No início do século XII, a Igreja católica presenciará a difusão da "heresia dos cátaros" que se propagará no território do Languedoc, região sudoeste da França, também denominada freqüentemente por "Occitânia".
Antes de tudo, é conveniente ressaltar que o catarismo não pertence exclusivamente ao Languedoc, nem o Languedoc deve ser visto exclusivamente sobre o prisma do catarismo. Aderentes à doutrina cátara recebem diferentes nomes no país em que se inserem: Na Itália, eram conhecidos como "patarinos", na Alemanha como "ketzers"; na Bulgária, como "bogomils". Existiram cátaros na França, na Catalunha, na Itália, na Alemanha e, ao que parece, até mesmo na Inglaterra.
Michel Roquebert. Nós, os Cátaros - Práticas e crenças de uma religião exterminada
Crenças
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a idéia de inferno, pois no fim o deus do bem triunfaria sobre o deus do mal e todos seriam salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, da Páscoa e Pentecostes. Não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.

Ruínas da fortaleza de Montsegur, último refúgio dos Cátaros
Na organização de sua Igreja, seus membros estavam divididos em crentes, perfeitos e bispos. As pessoas se tornavam perfeitos (homens bons) pelo "ritual do consolamento" (esta cerimônia consistia na oração do Pai Nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição.
Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de São João, e o ritual terminava com o beijo da paz. Os crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, podiam frequentar a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos. Dessa forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente em dois pontos: a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo, dogmas que mais tarde também foram defendidos e pregados por Francisco de Assis.
Heresia ou interesses políticos?
Devido à propagação da "heresia cátara" a partir de 1140, a Igreja começa a perder adeptos e espaço e decide tomar medidas para combater os cátaros, sendo que no início tentava conquistar os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando trágicas medidas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo da Igreja de Roma. Aqui vemos um claro motivo político para as investidas contra as comunidades cátaras e sua doutrina. Diante dessa reflexão nos perguntamos: Poderia haver outros motivos para tais investidas?
A resposta é sim. É preciso lembrar que a maior parte das terras atingidas pela "heresia cátará" pertencia à província de Narbona e somente a região de Albi ligada à província de Bourges. O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região - independente do reino da França - as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, entre os quais, os mais importantes o Conde de Toulouse e o Visconde de Béziers, ambos simpatizantes da "heresia cátara" que defendia a renúncia aos bens materiais, era contra o pagamento de impostos ao reino e aos senhores feudais, bem como contra o pagamento do dízimo a Igreja. Esses eram conceitos que tanto o Rei da França quanto o Vaticano viam como ameaça a seus interesses.
Com a perseguição e o extermínio dos cátaros a Igreja Católica se viu livre da "concorrência" e o Rei francês anexou o Languedoc a França em 1229 através do Tratado de Meaux.
Os cátaros a exemplo dos primeiros cristãos levavam vida ascética de alta espiritualidade, vivenciando na prática um cristianismo puro, numa total alta-renúncia a tudo o que era deste mundo. Renegavam o deus do Velho Testamento por seu caráter vingativo e punitivo, dando valor somente ao Novo Testamento, destacando o Evangelho de João. Por sua humildade e simplicidade, além da caridade praticada aos pobres eram reconhecidos como "os verdadeiros discípulos de Cristo", a serviço da comunidade e dos humildes. Um verdadeiro exemplo de amor ao próximo, como o próprio Jesus pregava.
Em sua vida simples e humilde, os cátaros galgavam o caminho da transformação e pregavam o Evangelho do Amor.
Luciano Machado. ![]()
Referências
O'shea, Stephen - A Heresia Perfeita. Ed. Record, 2003
Miranda, Hermínio C. - Os cátaros e a heresia católica, Ed. Lachâtre
Angelbert, Jean - Os filhos místicos do Sol, Ed. Difel
Gadal, Antonin. - No Caminho do Santo Graal. Ed. Rosacruz, 2004
Roquebert, Michel - Nós, os Cátaros - Práticas e crenças de uma religião exterminada
Nelli, René - Os Cátaros, Ed. 70
Barros, Maria Nazareth Alvim de. - "Deus reconhecerá os seus" - a história secreta dos cátaros,, Ed.Rocco, 2007
Burl, Aubrey - Hereges de Deus: a Cruzada dos Cártaros e Albigenses, Ed. Madras
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